A Pipoca Mais Doce e o Veganismo

Por Jorge Ribeiro

A Pipoca Mais Doce, famosa blogger portuguesa, escreveu um artigo no seu blog intitulado “Fui (quaaaaase) vegan por um mês e sobrevivi“.

Esta é a opinião de um vegano sobre este artigo. E afirmo, desde já, que a Pipoca Mais Doce diz várias mentiras no seu artigo sobre o veganismo. Mas reconheço também que diz algumas verdades, que nem todos/as os/as veganos/as gostam de admitir.

Vamos lá então analisar o que ela tem a dizer sobre o veganismo.

“Ser vegan é extremamente chato e desafiante. É passar o dia a pensar no que se pode e não se pode comer. É passar a vida a fazer tetris com os alimentos, tira daqui e põe dali. A minha conclusão foi: sim, os vegan perdem peso porque se levarem a coisa mesmo, mesmo a rigor, NÃO TÊM NADA PARA COMER!”

Começamos logo com a primeira mentira. E bem descarada. As opções de alimentação vegana são ilimitadas. A quantidade de frutas, frutos secos, legumes, leguminosas, cereais, tubérculos, fungos (ex: cogumelos), algas, derivados da soja, etc, é enorme. Aliás, todas as pirâmides alimentares (ou rodas dos alimentos) indicam que a base da nossa alimentação deve ser de origem vegetal. Como é que poderiam indicar isso se, depois, não houvesse nada para comer?
Aliás, a própria Direção Geral de Saúde diz-nos que uma alimentação vegetariana é tão ou mais saudável do que uma alimentação omnívora. É porque, de facto, não faltam alimentos por onde escolher.
A realidade é que a maioria da população tem uma alimentação muito pobre, pouco diversificada, e muito à base dos produtos de origem animal. E as pessoas desconhecem uma quantidade enorme de alimentos que existem. Ou seja, como comem sempre a mesma coisa, pensam que só existe aquilo para comer. Ora bem, isso é mera ignorância.

“Se quisermos ser vegan mas continuar a frequentar restaurantes “normais”, isso implica passar o resto da vida a fazer pedidos especiais. Mas depois a pessoa não se lembra dar as 1500 indicações necessárias, “atenção que não pode ter queijo, nem natas, nem manteiga, nem ovo, nem porra nenhuma”. E então acontecem coisas como achar que se fez uma escolha espertíssima ao pedir só um esparguete com pesto e ele chegar à mesa já com queijo ralado, porque não nos ocorreu detalhar toooooda a extensa lista do que não se pode comer. A grande maioria dos restaurantes ainda não tem opções vegetarianas, quanto mais vegan. E se nas cidades maiorzitas uma pessoa ainda se safa, indo mais para o interior do país é para esquecer.”

Aqui ela tem razão. Eu sei que os veganos procuram fazer passar a ideia de que é muito fácil ser-se vegano e ter uma vida normal em sociedade. Mas não é verdade. Como referi anteriormente, as pessoas ainda são muito ignorantes relativamente à alimentação. Comem todas as mesmas coisas, com pouca variedade. E é claro que a esmagadora maioria dos restaurantes reflete esta tendência da sociedade. Ou seja, não estão preparados para receber clientes veganos. E, por incrível que pareça, não sabem que os peixes são animais e que o queijo é um produto de origem animal. Nesse sentido, a Associação Vida Animal lançou o panfleto Refeição Vegetariana no Menu, que qualquer pessoa pode imprimir e entregar nos restaurantes que bem entender. O objetivo passa por tentar fazer com que os restaurantes evoluam e diversifiquem a sua oferta.

“Ser vegan implica passar a vida a explicar coisas, é como viver permanentemente num interrogatório da PJ. Preparem-se, se houver um vegan na mesa, 90% da conversa vai ser em torno deste assunto. Eu tentei contar ao menor número de pessoas possível, precisamente para não estar a aturar perguntas a toda a hora, mas nem assim me esquivei.”

Aqui nada mais tenho a acrescentar. É verdade. Eu sou vegano e faço o que ela fez: contar ao menor número de pessoas possível, precisamente para não estar a aturar perguntas (estúpidas) a toda a hora.

“Ainda assim, os verdadeiros vegan a-do-ram falar sobre o tema, é impossível conhecerem alguém e não contarem logo que são vegan. É uma coisa que não conseguem guardar só para eles, fazem questão de partilhar com o mundo e falar sobre isso até os outros já estarem a sangrar dos ouvidos.”

Isto é mentira. E é um comentário de quem só conhece 2 ou 3 veganos. Eu considero-me um verdadeiro vegano (desconheço o que são veganos falsos) e evito falar do tema, a não ser que me questionem sobre o mesmo.

“Para quem, como eu, comeu normalmente durante 36 anos e que tem prazer a comer carne e peixe, não é fácil abrir mão de tudo. Não é mesmo. Ao ponto de nem o cérebro estar preparado para isso. Quantas e quantas vezes não pensei “vou lanchar um pão com fiambre”, e depois “ah, merda, não dá”. Ou “vou ali comprar um bolo”, e depois “ah, merda, leva ovo ou manteiga, não dá”. Ou estar num buffet de sushi, a escolher só peças vegetarianas, e sem dar por isso meter no prato uma peça com salmão. Foi completamente involuntário, nem pensei (e não, não a comi).”

É verdade. Não é fácil. Tal como não é fácil para muitas pessoas evitarem a violência quando estão enfurecidas com alguém. Mas a questão é que existe algo superior (o bem-estar dos animais) e bem mais importante do que o nosso paladar.

“O mais difícil para mim foi, sem dúvida, o pequeno-almoço. Um vegan está muito condicionado ao pequeno-almoço, porque não pode beber leite (há as alternativas, tipo leite de amêndoas, de soja, de arroz, mas odeio isso tudo), não pode comer iogurtes, não pode comer manteiga, queijo ou fiambre. Então como o quê, pessoas de Deus???? “Ah, come um pãozinho com doce, ou com manteiga de amendoim”.

Tanta mentira e preconceito junto que nem sei por onde começar. Primeiro a Pipoca quer que nós acreditemos que só gosta de leite de origem animal. Ou seja, detesta leite de soja, de arroz, de coco, de caju, de aveia, etc. A mim parece-me que é mesmo má vontade e preconceito. E que nem sequer experimentou nenhum deles. E depois diz que não pode comer iogurtes, manteiga ou queijo. Claro que pode. Há imensos iogurtes, manteigas e queijos de origem vegetal, e bem saborosos. Aqui foi mesmo a ignorância a falar.

“No tal fim-de-semana no Alentejo, durante uma prova de vinhos puseram-nos um prato de queijos e enchidos à frente.”

Como referi anteriormente, ainda vivemos numa sociedade muito limitada do ponto de vista gastronómico, dado que as ofertas são, invariavelmente, sempre as mesmas em todo o lado para onde se vá.

“Ainda durante esse fim-de-semana, num dos restaurantes a que fomos não havia mesmo nada que eu pudesse comer, além de sopa. Ora eu não me fico só com uma sopa e também não me estava a apetecer comer folhas de alface, por isso pedi uns ovos mexidos com espargos.”

Folhas de alface…. lá está de novo o preconceito a falar. Gostava que a Pipoca falasse sobre o tema de uma forma não preconceituosa mas parece-me que seria pedir muito.

“Nas cozinhas vegan e vegetariana há coisas realmente boas, que foram uma surpresa e que fizeram com que a experiência fosse mais fácil. Descobri óptimos restaurantes e percebi que se tivesse alguém a cozinhar-me aquelas coisas todas em casa, conseguia ser vegan a vida toda.”

É verdade que existem ótimos restaurantes vegetarianos. Mas também podem fazer refeições muito simples e saborosas em casa. Consultem no site do Amor e Hortelã algumas receitas.

“Hoje é o último dia da minha experiência vegan e, sinceramente, não sei como vai ser daqui para a frente. Acho que chegarei a um meio-termo, que era o que eu queria fazer desde sempre: reduzir largamente o consumo de proteína animal (sobretudo os lacticínios), sem a cortar completamente. Por exemplo, seguindo uma dieta vegetariana (não vegan, esqueçam lá isso) durante a semana e deixando para o fim-de-semana qualquer coisa que me apeteça mais. Convenhamos, a vida sem croquetes também não tem gracinha nenhuma.”

Pelos vistos a experiência da Pipoca até nem foi assim tão má.
Mas quero terminar com a ideia que me parece a mais importante de todas.
Apesar de muita gente tentar fazer passar essa imagem (errada), os veganos não são radicais, nem extremistas nem fundamentalistas. Afirmar isso é o mesmo que afirmar que Ghandi e todos os que defendem a não violência são radicais e fundamentalistas. Não! Os radicais são os violentos.
E aqui passa-se exatamente o mesmo. Os veganos apenas tentam viver a sua vida contribuindo o menos possível para o sofrimento e a morte de outros seres sencientes. Para mim radicais não são os veganos, mas sim os omnívoros, que contribuem e defendem essa violência.
E por isso é que o veganismo não é uma opção. É uma obrigação moral. Uma opção é eu escolher uma tshirt preta ou azul ou escolher para almoço tofu ou seitan. Mas quando a minha opção implica o sofrimento e a morte de outros, deixa de ser opção.
E, pelos vistos, foi isso mesmo que percebeu o companheiro da Pipoca: “O homem, mais dado a radicalismos, no dia seguinte ao documentário cortou com tudo: carne, peixe e derivados. E assim se manteve até hoje, muito feliz com a sua decisão.”

Se quiserem perceber melhor porque é que comer animais é errado, vejam este vídeo.

Pipoca

Imagem da esquerda: Pipoca Mais Doce
Imagem da direita: Mercy For Animals

 

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