Leia aqui a actualização de 7 de Outubro de 2016 »

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Exmos. Srs.,

A Caixa de Sugestões é um projecto da Associação Vida Animal, no âmbito do qual pretendemos funcionar como uma caixa de sugestões permanente e interactiva, enviando às empresas e instituições ideias e conselhos para que sejam cada vez mais amigas dos animais e socialmente responsáveis.

Antes de mais, gostaríamos de dar os parabéns ao Celeiro por ser pioneiro na distribuição de produtos veganos em Portugal, o que o torna sem dúvida numa das empresas mais estimadas pelos defensores dos animais no nosso país. No entanto, essa relação positiva é precisamente um dos motivos para que nos pareça tão estranha uma “dica” incluída no folheto “Alimentação Vegana”, disponível nas vossas lojas:

Seja discreto em relação à opção de se tornar vegetariano. Explique as suas razões apenas a quem o questionar, deixando que as restantes pessoas decidam por si mesmas como se alimentarem.”

O final da frase é indiscutível: naturalmente, um vegano tem de deixar que as outras pessoas decidam por si mesmas como se alimentarem. Não podemos – nem conseguimos – proibir ou obrigar as pessoas a comer aquilo que nós quisermos. Mas o conselho associado – “seja discreto” e “explique as suas razões apenas a quem o questionar” – é inaceitável, tanto mais por se enquadrar num panfleto genericamente bem escrito e que descreve de forma correcta aquilo que é o veganismo: “um modo de vida que assenta em razões éticas, como o respeito e o direito à vida de todos os seres vivos”. Aconselhar um vegano a “ser discreto” em relação ao veganismo é negar a natureza fundamental do próprio veganismo: a afirmação de uma postura ética.

Mas mesmo que assim não fosse, mesmo que se tratasse apenas de uma preferência pessoal, por que razão deveríamos ser discretos em relação a ela? Como qualquer outra pessoa, cada vegano pode e deve ser tão discreto como deseje. Há veganos que, de facto, só explicam as suas razões a quem os questiona. Mas também há veganos que tomam a iniciativa de conversar com não veganos sobre o veganismo, a exploração animal e as alternativas existentes. Há veganos que partilham informação, criam sites na Internet e páginas no Facebook, distribuem panfletos. E há até veganos que são tão pouco discretos que escolhem juntar-se a associações, como a Vida Animal e muitas outras, cujo objectivo é precisamente a promoção do veganismo. E não há nada de errado com qualquer destas opções. Poderão dizer-nos que ninguém gosta de um chato, sobretudo de um chato que nos confronta com as nossas próprias incoerências. Mas na verdade, quando defendem causas justas, os chatos – ou, de forma mais elegante, os persistentes – são quem vai mudando o mundo.

Custa-nos compreender por que razão ser “discreto” é considerada uma “dica para uma transição gradual” para o veganismo, até porque, quanto mais reflectirmos e conversarmos sobre o tema, melhor compreenderemos a decisão que estamos a tomar, o que tornará a transição mais fácil e gratificante. E custa-nos ainda mais compreender por que razão se encontra essa dica num folheto de uma loja dedicada à nutrição e ao bem-estar. Recomendar que um vegano seja discreto em relação ao veganismo é como recomendar que um ambientalista, ou alguém que se opõe aos maus-tratos aos animais de companhia ou à discriminação racial ou de género seja discreto em relação a essa sua convicção. Trata-se de uma dica não apenas inadequada a uma sociedade livre, como mesmo prejudicial àqueles a quem se dirige, uma vez que assumir e defender as suas convicções, afirmando-se como um cidadão activo e disposto a trabalhar por um mundo melhor, contribui decisivamente para a paz de espírito e o bem-estar psicológico de qualquer pessoa.

Por estas razões, pedimos-vos que reconsiderem o conteúdo do referido folheto, retirando o trecho indicado, e desde já nos colocamos ao dispor para qualquer assistência que considerem necessária.

Com os nossos melhores cumprimentos,

Jorge Ribeiro
Presidente da Direcção

Folheto Alimentação Vegana da Celeiro

Uma resposta até agora.

  1. Tânia Alves Silva diz:

    Também já enviei a minha mensagem de repúdio e desilusão sobre o texto!
    Bom Trabalho!