O leão Cecil e a hipocrisia – ou não

Por Fernanda Roxo

Há algumas semanas, os meios de comunicação noticiaram o assassinato de um leão chamado Cecil, no Zimbabué, por um caçador norte-americano, que as primeiras notícias julgavam ser espanhol. Desde então, tem-se assistido a uma onda de consternação e revolta, traduzida em petições, manifestações, angariações de fundos, comentários e discursos comoventes em memória de Cecil e contra a prática da caça.

Milhares de animais selvagens, entre os quais centenas de leões, conhecem esse mesmo destino todos os anos, nomeadamente em África e sendo a maioria dos caçadores europeus e norte-americanos, pelo que é difícil apontar os motivos que levaram a que a morte de Cecil, em particular, fosse alvo de tanta atenção. Um deles poderá ser o facto de a vítima ter um nome, outro a quantidade de informação e detalhe disponíveis sobre o seu assassinato, desde o facto de o caçador ter atraído Cecil para fora da área em que era proibido caçá-lo, passando por tê-lo atingido com uma flecha e deixado a esvair-se em sangue ao longo de 40 horas, e até ao momento em que o esfolou e cortou a sua cabeça para levar como troféu. Estas são, possivelmente, práticas comuns na actividade hedionda que é a caça, mas talvez não cheguem tantas vezes ao conhecimento do grande público. No caso de Cecil chegaram – e terão contribuído para que a história corresse mundo e perdurasse nas primeiras páginas de sites e jornais ao longo de mais de um mês.

De tudo o que tem acontecido nas últimas semanas emergem duas importantes constatações. A primeira é que o mundo é capaz de se comover desta forma com a morte de um ser não-humano, que nem sequer tem connosco a relação próxima de um animal de companhia, demonstrando que temos, afinal, a compreensão intuitiva de que os animais têm direito à vida e ao bem-estar. A segunda é que muitas pessoas unidas em torno de uma causa podem mover montanhas – veja-se as várias companhias que acrescentaram agora o seu nome à lista das que se recusam a transportar troféus de caça, tornando cada vez mais difícil aos caçadores cumprir a parte final do seu ritual macabro, que consiste em exibir nas paredes de suas casas partes dos cadáveres dos animais a quem covardemente tiraram a vida. Levantarmos a nossa voz contra aquilo que está errado é fundamental não apenas por uma questão de consciência, mas também porque podemos realmente fazer a diferença.

Mas a par das manifestações de tristeza e indignação pela morte de Cecil, por parte de milhões de anónimos e figuras públicas de diversos quadrantes, surgem também invariavelmente acusações de hipocrisia a uma sociedade que chora a morte de um leão e depois senta-se à mesa para comer carne de animais igualmente capazes de sentir e sofrer.

Hipocrisia, porém, não é uma acusação justa para as pessoas que se comoveram com o assassinato do leão Cecil mas participam de outras formas de exploração animal tão ou mais cruéis e desnecessárias, como o consumo de carne. A comoção e revolta das pessoas é genuína, a empatia que sentem para com o animal é real, e isso é importantíssimo. Não há hipocrisia quando há honestidade.

O que há, no entanto, é uma inegável incoerência. Condenar o assassinato de um ser senciente pelo mero prazer (que não é uma necessidade) de o caçar e ao mesmo tempo participar deliberadamente, ainda que de forma indirecta, no assassinato de milhões de seres sencientes pelo mero prazer (que não é uma necessidade) de os comer reflecte uma visão incoerente e a aceitação dogmática de um comportamento apenas porque “sempre o fizemos” ou porque “toda a gente o faz”. É também por isto que a indignação perante a morte de Cecil é tão importante: apresenta uma oportunidade para reflectir sobre essa incoerência.

Por Cecil e por todas as outras vítimas da caça, tem sido bonito assistir à comoção do mundo. Por todas as outras vítimas de todas as outras formas de exploração animal, esperamos que todos aqueles que se preocupam genuinamente com os animais aproveitem essa oportunidade.

cecil

Uma resposta até agora.

  1. Hosting diz:

    A crueldade por detras deste caso e perturbadora – Cecil nao foi apenas atingido com uma flecha, mas encontrado ainda vivo 40 horas depois e morto a sangue frio com um tiro.

Comenta este artigo