Comer Animais – Certo ou Errado?

A nossa palestra “Comer Animais – Certo ou Errado?” foi apresentada em primeira mão na conferência internacional Paredes de Coura Vegetariana, que decorreu em Julho de 2015. Esta apresentação visa estimular a reflexão sobre o problema ético associado ao acto de comer animais. A Vida Animal pretende que este debate se realize a nível nacional, pelo que se encontra ao dispor para levar esta palestra a muitos outros locais. Caso desejem organizar uma sessão de exposição e debate e pretendam a nossa presença, por favor contactem-nos para info@vidanimal.org.

 

Comer animais é um acto quotidiano para uma grande parte da população mundial. No entanto, colocados perante um animal vivo, a maioria de nós seria incapaz de o matar. Porquê? Haverá algo de errado no acto de matar um animal?

Para responder a essa questão, devemos antes de mais compreender o que é um animal. Um animal não-humano, tal como os indivíduos da espécie humana, é um ser senciente: um ser capaz de experimentar prazer e dor físicos e psicológicos, bem como emoções e interesses vitais na segurança e no bem-estar, sofrendo com o seu oposto. O reconhecimento dessa senciência é hoje praticamente unânime no mundo ocidental e é por essa razão que cada vez mais se vai criando legislação de protecção aos animais – não apenas aos animais de companhia mas também aos animais mortos e explorados para os mais diversos fins, incluindo para consumo alimentar. O nosso convívio com animais diz-nos que eles sentem, e que por isso devem ver os seus interesses salvaguardados, e a  legislação, cada vez mais, reflecte essa preocupação em salvaguardar esses interesses. Mas ainda mais importante é aquilo que nos diz a ciência. É já uma certeza antiga que os animais sentem, que têm um sistema nervoso central que os distingue das plantas e os torna sencientes, mas sabemos agora também que os animais são não só sencientes mas também conscientes. Em 2012, um grupo de renomados neurocientistas subscreveu a Declaração de Cambridge, na qual afirma que “tal como os seres humanos, os animais não-humanos, incluindo todos os mamíferos, aves e muitas outras criaturas, incluindo os polvos, possuem os substratos neurológicos que geram a consciência.” Phillip Low, neurocientista da Universidade de Stanford e autor da declaração, resumiu numa frase poderosa o impacto do documento: “Já não podemos dizer que não sabíamos.”

De facto, sabemos já sem quaisquer dúvidas que os animais são seres que sentem. E essa faculdade de sentir, essa senciência, atribui-lhes desde logo o direito à vida e ao não-sofrimento. Tal como os direitos humanos são inerentes à condição humana e se aplicam a todos os seres humanos pelo mero facto de serem seres humanos, também o direito à vida e ao não-sofrimento são inerentes à condição de ser senciente e aplicam-se a todos os seres sencientes pelo mero facto de serem capazes de sentir.

Mas se os animais têm o direito à vida e ao não-sofrimento, ao matá-los para comer estamos a violar esses direitos. Será, então, que respeitar os direitos dos animais implica deixar de os comer? Estaremos perante um problema ético?

Se comer animais for essencial à nossa sobrevivência ou para a nossa saúde, então não há lugar a qualquer problema ético; estando a nossa sobrevivência em causa, seria natural lutarmos pela nossa auto-preservação. Mas será esse o caso? A resposta é clara e negativa. Não só pela experiência de milhões de veganos pelo mundo, que há várias gerações vivem vidas saudáveis sem se alimentar de animais, não só pelo exemplo de superatletas veganos como o strongman Patrik Baboumian ou o ultra-maratonista Scott Jurek, mas sobretudo pela posição dos especialistas. Ao longo, sobretudo, da última década, têm sido várias as associações de nutricionistas a declarar categoricamente que uma dieta isenta de produtos de origem animal é adequada para todas as fases da vida, incluindo a infância, gravidez e aleitamento, e ajuda inclusivamente a prevenir algumas doenças. Entre as associações nacionais que já o afirmaram conta-se a mais prestigiada do mundo, a ADA – American Dietetic Association, bem como as suas congéneres britânica, espanhola ou brasileira – e muito recentemente também a nossa Direcção-Geral de Saúde.

Se, como se conclui, não é necessário ao ser humano comer animais, então estamos de facto perante um problema ético: uma situação em que há um certo e um errado. E comer animais, violar o seu direito à vida e ao não-sofrimento apenas porque gostamos do paladar dos seus cadáveres, não tenhamos dúvidas, é errado.

Mas e agora? Se comer animais é errado, o que pode cada um de nós fazer? Desde logo, o mais óbvio: deixar de comer animais. Cada dia, cada refeição, é uma oportunidade para reafirmarmos o nosso compromisso com os direitos dos animais, abdicando de os comer. E para além disso, é importante dizermos alto e bom som que comer animais é errado. Sem medo de se parecer ridículo. Comer animais é errado e é preciso fazer chegar essa mensagem aos quatro cantos do mundo. Até porque a maioria das pessoas já partilha dessa nossa ideia. Praticamente toda a gente no mundo ocidental considera que é errado comer cão ou gato, porque sabe pela experiência que esses animais são capazes de sentir e que por isso têm direito à vida e ao não-sofrimento. O que falta é compreender que os animais que habitualmente usamos como comida – vacas, porcos, galinhas, bacalhaus – têm a mesma senciência e por isso os mesmos direitos, sendo igualmente errado causar-lhes sofrimento e morte. Na verdade, essa compreensão é intuitiva para a maioria das pessoas, embora disfarçada pela força do hábito e das convenções sociais. É evidente que a matança de animais nos é desconfortável; os matadouros são locais afastados das populações, discretos, escondidos, onde, nas palavras dos próprios funcionários do matadouro de Santarém numa recente reportagem no jornal i, “ninguém se orgulha de trabalhar”, pois “isto não é fácil” e “os borregos a chorar parecem autênticos bebés”. A sociedade do século XXI já sabe que comer animais, quaisquer animais, é desnecessário, e por isso errado, e que o facto de a maioria da população o fazer não o torna menos errado. E isso começa a fazer-se notar.

A evolução para uma sociedade em que se respeitem os direitos dos animais já começou e é visível a cada dia, mas é comum vermos e ouvirmos, quer nos media, quer em conversas casuais, a desconsideração do vegetarianismo como uma opção pessoal ou uma moda. É importante frisar que não estamos perante uma coisa nem a outra. Uma opção pessoal é uma escolha moralmente neutra, que não implica consequências para terceiros. Comer ou não comer animais é uma decisão que acarreta consequências gravíssimas para terceiros, e como tal não é uma opção pessoal mas um imperativo ético. E também não é uma moda. É um passo no sentido de uma sociedade mais justa que, como outros no passado, veio para ficar. Em 1850 a escravatura ainda era legal em países do ocidente. Em 1920 havia zoos humanos na Europa. Em 1960 as mulheres portuguesas não tinham direito de voto. Em 1980 a homossexualidade era crime em Portugal. Em 2015 os animais são comida. Tal como as anteriores, também essa injustiça será ultrapassada.

Disse o escritor francês Victor Hugo que nao há nada mais poderoso do que uma ideia cuja hora chegou, e é para nós claro que a hora do vegetarianismo chegou. Somos cada vez mais – nos países nórdicos já 10% da população, na Alemanha 15% dos jovens. São cada vez mais os restaurantes, hotéis e outros negócios vegetarianos a prosperar. Em Julho de 2015, vemos a Câmara Municipal de Paredes de Coura a organizar uma conferência internacional de dois dias sobre vegetarianismo e a assumir sem medos que quer colocar Paredes de Coura no mapa como um município referência na promoção do vegetarianismo em Portugal. O mundo está a mudar.

Deixar de comer animais pode parecer uma ideia radical, mas a evolução social das últimas décadas é a prova de que as ideias radicais de uma geração são o senso comum da geração seguinte. E nós na Vida Animal não temos a mínima dúvida de que está para breve o dia em que o vegetarianismo será senso comum. Porque todos os animais têm uma família, porque todos os animais sentem e querem ser felizes, comer é animais é errado. Os animais não são comida.

3 Respostas até agora.

  1. Maleninhaa diz:

    Se matar por que esta com muita fome ainda vai

  2. Maleninhaa diz:

    acho erado matar animais por matar mas se voce matar por que esta com muita fome eu acho certo

  3. Henrique diz:

    muito bom. não precisamos de forma alguma de nenhum produto de origem animal, temos tudo à nossa disposição nas plantas, que não sofrem, como citado no texto. mas parece que as pessoas não assimilam o significado do sofrimento em outros animais…
    mas o mais chato mesmo é o especismo… considerar algumas especies melhores do que outras..

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