Especismo

Por Joana Teixeira

O termo “especismo” , comummente utilizado na linguagem do activismo animal, é de uso corrente na actualidade e designa uma “teoria que defende a superioridade de uma espécie, nomeadamente a espécie humana, sobre outra ou outras” (Dicionário Priberam online, cf. http://www.priberam.pt/dlpo/default.aspx?pal=especismo). De acordo com Silva, “especismo” é um termo criado por Richard D. Ryder em 1975 para “designar o nosso hábito de discriminar os indivíduos de outras espécies só porque pertencem a outras espécies” (Silva, 2009:5). Como refere Felipe, Ryder empregou essa palavra para denominar “os costumes […] que submetem os animais aos interesses exclusivos dos seres humanos” (Felipe, 2001:25-26). Aquele autor é, então, o “pai” do termo.

Para Olivier (1991), “o especismo está para a espécie assim como o racismo está para a raça e o sexismo está para o sexo: uma discriminação baseada na espécie, quase sempre a favor dos integrantes da espécie humana (Homo sapiens)” (Olivier, 1991).

A crença predominante nas sociedades contemporâneas, marcadas, entre outras influências, por várias religiões, é a de que o ser humano é dotado, inerentemente, de características “especiais”, que o tornam, nesta perspectiva, uma criatura sagrada ou superior às demais. Deste modo, entende que o ser humano já possui valor próprio apenas por pertencer à sua espécie e, neste enquadramento, o Homem interessa-se mais por defender os seus interesses e os dos seus semelhantes do que os interesses que qualquer outro ser vivo possa ter. Assim, todo e qualquer dano que lhe possa ser causado deve ser fortemente punido, não se passando, de acordo com este ponto de vista, o mesmo com seres de outras espécies, contra quem são cometidos ininterruptamente vários actos que perigam ou terminam com as suas vidas, de que são exemplo a utilização de peles de animais para vestuário, a realização de experimentação animal com o fim de testar produtos como medicamentos ou cosméticos, o uso de animais em actividades como touradas, lutas de animais, circos, a sua permanência em jardins zoológicos, sendo privados de viver no seu habitat natural, a comercialização de várias espécies como animais de companhia, o uso de animais como alimentação, a bestialidade, entre outros.

O especismo reside, neste enfoque, no facto de estas actividades serem impensáveis e /ou proibidas e / ou condenadas quando cometidas contra um ser humano, mas serem raramente punidas ou socialmente aceites quando se trata de animais não humanos. O especismo é, então, uma ideologia antropocêntrica, vendo o Homem como ser central no universo, destacando-se das demais criaturas sencientes. Isto resulta, entre outras consequências, na ideia de que o ser humano tem legitimidade para, em nome do seu próprio proveito, instrumentalizar outros animais de acordo com a sua conveniência. Partindo deste pressuposto, há quem compare esta ideologia que supõe a existência de superioridade humana com os princípios que postula(va)m preconceitos como o racismo, o sexismo ou aqueles que motivaram o nazismo, tendo em consideração que todos eles se erguem sobre as diferenças entre indivíduos, sejam elas de género, raça, credo religioso, orientação sexual ou espécie, apoiando-se na convicção de que as diferenças provêm da superioridade ou inferioridade entre indivíduos ou, por outro lado, que as diferenças justificam essa ideia de “superioridade” humana.

A este respeito, o professor universitário e filósofo australiano Peter Singer define: “Especismo é um termo que usei para estabelecer um paralelo entre, por um lado, o racismo e o sexismo, e, por outro, a nossa atitude para com os animais. A atitude dos racistas brancos para com os africanos era “Não és um membro da minha raça. Por isso, não há problema em capturar-te, escravizar-te e usar-te como uma ferramenta viva para trabalhares nas minhas plantações”. Quando pensamos acerca do que fazemos aos animais, a atitude é bastante similar, Dizemos: “Não és um membro da minha espécie. Por isso, não há problema em em capturar-te, alimentar-te, transformar-te numa coisa, usar-te como uma ferramenta para a produção de comida, ovos ou leite – ou usar-te como um instrumento experimental em laboratório”. O facto de uma criatura não ser um membro da nossa espécie não justifica, por si mesmo, qualquer uma destas coisas que lhe fazemos” (Singer, 2008:338).

A abordagem do autor pressupõe a crença de que a faculdade da linguagem ou do pensamento, detida pelos seres humanos, não justifica que estes possam utilizar outros seres de acordo com as suas conveniências, tendo em consideração que os animais são capazes de sentir, e que, como tal, será eticamente reprovável fazê-los experimentar situações que lhes causem dor / sofrimento e, também, considerá-los “sub”espécies, destinadas a servir o Homem.

Olivier (1991) defende que um interesse deve ser tido em consideração por si mesmo e a nossa atribuição de importância a esse interesse não deve estar dependente da nossa relação ou proximidade com o “interessado”. Deste modo, o autor salienta, no texto “O que é o especismo?” (publicado em “Les Cahiers antispécistes”) que “se declaramos ser justo o facto de levarmos em conta um interesse que não seja o nosso, isso apenas pode ser feito por se tratar de um interesse e não em função da relação que temos com o interlocutor cujo interesse está em jogo. É isto que torna injusto o racismo e o sexismo. Um acto não pode ser considerado justo ou injusto levando-se em conta o facto do autor do acto e daquele que o sofre pertencerem ou não ao mesmo grupo” (Olivier, 1991).

Muitos teóricos e autores que erguem a voz contra a discriminação baseada na espécie fazem questão de frisar que não o fazem por serem “amigos” dos animais, mas por uma questão de justiça e de coerência: se condenam outras formas de segregação baseada nas diferenças indivíduais não podem estar de acordo com a perspectiva de “superioridade” baseada na espécie. Singer, em “Animal Liberation” (texto que depois foi replicado em “Writings on an ethical life”) resume a ideia:

“Tentámos explicar que estávamos interessados na prevenção do sofrimento e do suplício; que nos opúnhamos à discriminação arbitrária; que pensávamos que era errado infigir sofrimento desnecessário a outros seres, mesmo que não pertencessem à nossa espécie; e que acreditávamos que os animais eram impiedosa e cruelmente explorados pelos seres humanos e que queriamos que isso mudasse. Fora isso, dissemos, não estávamos “interessados” em animais. Nenhum de nós tinha alguma vez gostado demasiado de cães, de gatos ou de cavalos, no mesmo sentido em que muitas pessoas gostavam. Não “adorávamos” animais. Queríamos simplesmente que eles fossem tratados como os seres sencientes independentes que são, e não simplesmente como meios para os fins humanos – como tinha acontecido com o porco cuja carne estava agora nas sanduíches da nossa anfitriã” (Singer, 2000:38).

No texto “Não, não sou amiga dos animais!” (cf. http://www.cahiers-antispecistes.org/spip.php?article302) publicado em 1991 nos Cadernos Antiespecistas, pode ler-se uma perspectiva similar, a de que os seres vivos merecem respeito pelos seus interesses independentemente da relação que com eles estabeleçamos:

“Opor-se à exploração dos animais e à opressão dos «não humanos» nada tem a ver com o fato de ser «amigo dos animais». Há centenas e milhares de amigos de animais por aí. Os restaurantes com rodízios de carne estão cheios deles. As lojas que vendem artigos de pele, também. Os domadores dos circos fazem poses afetuosas com os animais que domam com descargas de eletricidade e bastões de ferro.

O chofer de caminhão que transporta os animais para os abatedouros de um outro país e os deixa três dias sem água e sem comida, até que os animais se comam mutuamente, volta correndo para casa, para sua mulher e seu gatinho. O vivisseccionista, cansado após uma tarde de experiências feitas em um animal não anestesiado, volta para casa e acaricia seu cão…”

 

“Tipos” de especismo

A relação entre humanos e não humanos ergue-se num variado conjunto de formas de utilização de “recursos” daqueles face a estes últimos. Em “Pratical Ethics”, Singer menciona os principais modos que o Homem utiliza para retirar partido dos animais não humanos: alimentação, experiências com animais, uso de peles, caça, circo, touradas, jardins zoológicos, comércio de animais de estimação. Todas estas “finalidades” se baseiam no princípio de que os animais existem para servir o Homem e que o sofrimento a que estão sujeitos pode ser ignorado.

 

Animais e alimentação

Embora a actuação pela defesa dos direitos dos animais constitua uma causa com uma expansão progressiva, havendo tendencialmente maior consciência para com eles e se verifiquem pequenos progressos ao longo do tempo (por exemplo, abolição das touradas na Catalunha), uma das formas de exploração de animais mais commumente aceite é a da indústria da alimentação.

A defesa de uma alimentação vegetariana, isto é, sem recurso à “carne” de animais criados e mortos / capturados para esse efeito, (como vacas, ovelhas, galinhas, peixes, etc) ou vegana (sem recurso a qualquer tipo de produto de origem animal, rejeitando também, adicionalmente à anterior, lacticínios, ovos, mel, etc), tem sido adoptada por muitos cidadãos anónimos e personalidades reconhecidas mundialmente: actores, músicos, desportistas, etc. Não obstante, é ainda uma das “utilizações” mais enraizadas que o Homem faz de outros seres vivos, baseada na ideia de que o Homem precisa de nutrientes provenientes dos animais, na ideia de que matar para comer “é natural” e “é a lei da vida”, tendo em consideração que também os animais se matam mutuamente para este fim, entre outras perspectivas.

Alguns dados disponibilizados pela Associação ANIMAL no website, relativamente a “animais de quinta”, isto é, animais criados para serem mortos para consumo, referem que estes “são os animais mais afectados no mundo pela actividade humana. Todos os anos, mais de 50 mil milhões de “animais de quinta” são explorados e mortos para serem transformados em comida para alimentar humanos (embora isso seja completamente desnecessário, dado que os humanos têm todas as vantagens do lado de uma dieta vegetariana)” (cf. http://www.animal.org.pt/accao_alimentacao_inicio.html).

 

Experiências com animais

A experimentação animal continua a ser a forma que as indústrias farmacêuticas e uma parte das produtoras de cosméticos e artigos de limpeza utilizam para testar se os produtos são perigosos para o ser humano. Deste modo, como documenta a Associação ANIMAL, “Apenas há uns anos atrás, todas as empresas de cosméticos envenenavam animais com baton, champôs, sprays para cabelos ou outros produtos de “beleza”. Os produtores de carros batiam nas cabeças de macacos com martelos hidráulicos para simular acidentes. Os técnicos de laboratórios matavam um coelho de cada vez que faziam o teste de gravidez de uma mulher. As tabaqueiras obrigavam cães a inalar quantidades enormes de fumo de tabaco para testar a sua toxicidade. Estes testes eram considerados muito eficazes”.

Estes testes são, como defendem os activistas que não apoiam a experimentação animal, causadores de sofrimento e muitas vezes praticados sem anestesia. Contudo, no que toca a fornecedores de cosméticos e artigos de beleza, existem actualmente várias marcas que disponibilizam produtos “cruelty free” (isto é, sem recurso a testes e experiências causadoras de enorme sofrimento e morte a milhões de animais, como coelhos, chinchilas, cães, primatas, ratos, entre outros, e sem ingredientes de origem animal). Existem listas de marcas que se destacam por não efectuar testes em animais, disponíveis na web, como se pode confirmar em http://www.peta.org/living/beauty-and-personal-care/companies/search.aspx?Testing=0 e http://www.gocrueltyfree.org/shopper.

 

Uso de peles

O uso de peles de animais para vestuário pressupõe a criação massiva de animais com o intuito de lhes retirar as peles para a confecção de casacos, botas, cintos, carteiras, entre outros. As associações de defesa dos direitos animais e muitos consumidores condenam esta prática por a considerarem cruel e desnecessária, porque existem imensas alternativas sintéticas que não implicam a morte, sofrimento e a vida restritiva que coelhos, chinchilas, raposas, porquinhos da índia, entre outros animais vivem exclusivamente para terminarem como parte integrante de uma peça de roupa.
Caça, circos com animais, touradas, jardins zoológicos

Estas são formas de exploração dos animais que se realizam como entretenimento para o Homem. A caça, para além de ser, muitas vezes, considerada “desporto”, resulta na morte de muitos animais que são depois utilizados para serem consumidos como alimento. As touradas, como é de conhecimento geral, implicam que um animal seja maltratado, violentado psicológica e fisicamente e cruelmente agredido como “entretenimento”. São espetados no animal em questão farpas de grande dimensão até que seja derrotado e finalmente abatido para que a sua carne seja consumida. Os circos e jardins zoológicos obrigam os animais a viverem fora do seu habitat natural, estando sujeitos e stress, separação dos outros membros da espécie, obrigados a fazer “habilidades” que não fazem parte do seu comportamento normal, sendo, como diz a Associação ANIMAL, criaturas que “têm sempre passados traumáticos e, fruto da maneira como são mantidos e tratados enquanto são usados para os espectáculos circenses, estão condenados a uma vida de permanente angústia e depressão” (cf. http://www.animal.org.pt/accao_circos_animais.html).
Comércio de animais de estimação

O comércio de animais com o intuito de virem a ser animais de estimação é condenado por defensores de animais / activistas por se tratar de uma forma de os “mercantilizar”, colocando preço nas suas vidas, e por isso olhar as outras espécies como objectos. Além disso, o comércio de animais pressupõe a separação dos filhotes das suas mães, rompendo os laços que ligam as famílias, e confina esses animais a viverem em gaiolas ou montras até que sejam comprados. Devido a haver animais à venda, quase sempre de raça e por isso vendidos a preços relativamente elevados e por haver consumidores que encaram esses animais como passíveis de obtenção de elevado estatuto social, milhares de animais que vivem em canis ou vagueiam pelas ruas são abatidos, já que os consumidores que optam por comprar um animal acabam por não adoptar nos abrigos locais.

Se amas animais a que chamas de estimação,<br />porque comes animais a que chamas jantar?

Se amas animais a que chamas de estimação, porque comes animais a que chamas jantar?

BIBLIOGRAFIA:

Associação ANIMAL (1994 – 2010) “Áreas de actuação” <http://www.animal.org.pt/>

Felipe, Sônia (2001) “Da igualdade. Peter Singer e a defesa ética dos animais contra o especismo”, <http://www.centrodefilosofia.com/uploads/pdfs/philosophica/17_18/3.pdf>

“Os cadernos anti-especistas” <http://www.cahiers-antispecistes.org/spip.php?page=sommaire-pt>

Olivier, David (1992) “O que é o especismo?” (artigo ligeiramente modificado relativamente a um texto publicado em abril de 1991 na revista Informations et Réflexions Libertaires, na secção «Anti-especismo»)

SILVA, Manuel Barradas Teles da (2009) Uma Introdução à Teoria de Tom Regan e a Estratégia Para a Sua Abordagem – Dissertação de Doutoramento em Filosofia apresentada à Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa <http://repositorio.ul.pt/bitstream/10451/2417/1/ulsd058517_td_tese.pdf>

SINGER, Peter. Escritos sobre uma Vida Ética. Editor: Dom Quixote. 2008. ISBN: 978-972-20-3021-2

SINGER, Peter. Ética Prática. Editor: Gradiva Publicações. 2000. ISBN: 978-972-662-723-4

Comenta este artigo