Na sequência do pedido de esclarecimento à Ordem dos Nutricionistas por a sua bastonária ter afirmado que “o veganismo não é opção”, e apesar de a Associação Vida Animal não ter ainda recebido qualquer resposta directa, algumas das pessoas que também enviaram o pedido de esclarecimento reencaminharam-nos a resposta que receberam e que publicamos na íntegra abaixo.

Destacamos, antes de mais, que “a Senhora Bastonária lamenta a incorreta interpretação das suas palavras, fundamentada numa eventual descontextualização do seu discurso” – ou seja, segundo a comunicação recebida, a afirmação de que “o veganismo não é opção” é uma interpretação incorrecta da opinião da bastonária da Ordem dos Nutricionistas.

Ainda assim, lamentamos verificar a insistência em dar ao veganismo um tratamento de excepção, reafirmando que este “poderá acarretar vários défices nutricionais” e que só será adequado se baseado numa alimentação “equilibrada, completa e variada”, quando este tipo de advertência é válido para qualquer tipo de dieta e não apenas para a dieta vegana – que, aliás, tem vindo a ser associada em cada vez mais estudos a uma redução da incidência de diversas doenças muito comuns na população em geral.

Realçamos, no entanto, dois pontos relevantes na comunicação recebida da Ordem dos Nutricionistas: a recomendação que não se consuma diariamente carnes brancas e peixe – e carnes vermelhas apenas esporadicamente; e a afirmação de que uma dieta vegetariana mal planeada “pode ser tão perniciosa como uma dieta não vegetariana desequilibrada” – ou seja, a questão não está no tipo de dieta, mas no facto de ser bem ou mal planeada.

Em conclusão: não obstante a insistente referência a eventuais défices nutricionais, que induz à ideia incorrecta de que o veganismo acarreta mais riscos do que outras opções alimentares, é importante sublinhar, para que fique absolutamente claro, que a afirmação de que “o veganismo não é opção” resulta de uma má interpretação e não corresponde à posição da Ordem dos Nutricionistas. De facto, e como afirmam a Direcção-Geral de Saúde, a American Dietetic Association, a Dietitians of Canada, a British Dietetic Association e muitas outras entidades de referência na área da nutrição e da saúde, o veganismo é uma dieta adequada a todas as fases da vida do ser humano.

Publicamos abaixo o email enviado pela Ordem dos Nutricionistas, aproveitando para agradecer a todas as pessoas que se associaram à Vida Animal no envio deste pedido de esclarecimento e em particular àquelas que nos reencaminharam a resposta recebida.

 

Email enviado pela assessora da Bastonária da Ordem dos Nutricionistas:

Acusamos a receção do seu email, que mereceu a nossa melhor atenção, pelo que nos cumpre transmitir o seguinte:

1. Na entrevista dada pela Senhora Bastonária à Agência Lusa, tendo em conta o alerta da Organização Mundial de Saúde relativamente ao risco de cancro para o consumo de carnes processadas e carne vermelha, o jornalista questionou, se uma alimentação vegana seria a melhor opção. Face a esta questão, a Senhora Bastonária explicou que não, uma vez que caso esta dieta não seja seguida com cautela e/ou o devido acompanhamento, poderá acarretar vários défices nutricionais, como certamente estará de acordo.

2. Será seguramente do seu conhecimento, que a Direção-Geral da Saúde, em concreto no documento “Linhas de Orientação para uma Alimentação Vegetariana Saudável”, alerta para este risco no propósito de auxiliar os indivíduos que pretendam seguir uma alimentação vegetariana ou vegana, a fazê-lo de forma saudável;

3. A evidência científica é clara, forte e sustentada: em qualquer uma das situações que refere, a alimentação deverá ser equilibrada, completa e variada. Posto isto, o padrão alimentar mediterrâneo, porque salvaguarda a saúde e representa a nossa cultura alimentar foi apontado pela Senhora Bastonária como aquele que os portugueses deveriam seguir em primeira instância.

4. Efetivamente, o padrão alimentar mediterrâneo caracteriza-se pelo consumo diário de produtos de origem vegetal (desde logo a forte presença dos produtos hortofrutícolas e dos cereais), pelo consumo moderado de produtos de origem animal (desde logo as carnes brancas e o peixe – não sendo, no entanto, recomendado o seu consumo diário) e, por fim, pelo consumo de carnes vermelhas, que deverá ocorrer esporadicamente.

5. Pelo exposto, a Senhora Bastonária lamenta a incorreta interpretação das suas palavras, fundamentada numa eventual descontextualização do seu discurso.

6. Reportando-nos ainda ao Manual da Direção-Geral da Saúde “Linhas de orientação para uma alimentação vegetariana saudável” não poderemos deixar de alertar que “A adoção de um padrão alimentar do tipo vegetariano exige conhecimento, treino na compra e confeção e algum tempo para uma assimilação adequada de alguns princípios alimentares. Nomeadamente para a obtenção de uma quantidade adequada de vitaminas (por ex. vitamina B12), minerais (por ex. ferro), gordura (ómega 3) e proteínas. Por outro lado, a rejeição de produtos de origem animal na nossa alimentação, total ou parcialmente, não implica que esta se torne automaticamente mais saudável. Ou seja, uma dieta vegetariana, se mal planeada, pode ser tão perniciosa como uma dieta não vegetariana desequilibrada. Se esta for rica em produtos excessivamente processados, pode fornecer maior quantidade de gordura, de energia/calorias ou de sal.” Sendo ainda realçado no referido documento que “(…) é importante que os indivíduos interessados em iniciar ou melhorar a sua alimentação e com interesse em adotar uma dieta vegetariana a longo prazo, consultem os seus profissionais de saúde. Estes devem estar informados e saber informar acerca dos benefícios e riscos associados a este tipo de alimentação, (…)”

7. Resta-nos reforçar que, para a obtenção de mais saúde, é fulcral ter um padrão alimentar completo, que se baseie no equilíbrio e na variedade.

Na expectativa que o presente esclarecimento mereça o devido acolhimento, subscrevo-nos com os melhores cumprimentos,

Tânia Cordeiro
Nutricionista | 0006N
Assessora da Bastonária

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