Este artigo é uma tradução do original publicado no site Vox.

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Cecil é um leão que captou a atenção do Mundo no início deste ano, quando um dentista americano o caçou e matou. As pessoas ficaram justificadamente indignadas com esta tragédia – tanto que, de facto, viraram-se contra toda a prática de caça de troféus. Várias companhias aéreas responderam, proibindo o transporte de uma série de troféus de caça nos seus voos. Em Outubro, as pessoas ficaram novamente furiosas quando um caçador alemão matou a tiro um elefante que teria entre 40 e 60 anos de idade, no Zimbabué. Apesar de este acto ter sido legal, ao contrário do que aconteceu no caso de Cecil, a matança desnecessária de animais selvagens continua a atrair protestos públicos.

A nossa indignação e compaixão não deve parar aí. A exploração humana dos animais é terrível e tem de ser erradicada, mas devemos considerar tomar medidas contra outra fonte considerável de dor e sofrimento para os animais selvagens – a própria natureza.

 

A tragédia do sofrimento dos animais selvagens

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Hoje em dia, muitos de nós têm pouco contacto com o mundo selvagem, tornando-se fácil ver a natureza de uma forma demasiado optimista. As imagens que vemos da natureza apresentam maioritariamente paisagens intocadas ou animais selvagens saudáveis e fotogénicos. Mas esta beleza incrível esconde um enorme sofrimento. Muitos animais selvagens estão sujeitos, sem alívio, a doenças, a ferimentos e a fome. Por exemplo, a dor dos animais que são vítimas de predadores como Cecil é especialmente horrível. As gaivotas bicam e comem os olhos de focas bebés, deixando os filhotes cegos a morrer, para depois se poderem deliciar com os seus restos mortais. Um musaranho paralisa a sua presa com veneno para que possa comer o indefeso animal vivo, pouco a pouco, durante dias.

O sofrimento natural dos animais selvagens é real e a sua enormidade impressionante, mas incrivelmente pouco é feito para reduzi-lo. Embora muitas organizações trabalhem para preservar os ecossistemas e a biodiversidade, poucas se focam no bem-estar dos animais individuais. E, apesar de mais pessoas se estarem a aperceber do tormento a que os animais selvagens estão sujeitos nas mãos de seres humanos que os caçam, pouca atenção tem sido dada para a questão de como ajudar os animais selvagens a evitar agonias naturais.

Os animais selvagens não são tão diferentes dos cães e gatos que nós amamos e merecem o mesmo nível de compaixão. Temos de tentar ajudá-los, se possível, com o cuidado especial de nos certificarmos que não causamos mais estragos, por perturbar os ecossistemas dos quais todos nós dependemos.

 

O que podemos fazer para parar o sofrimento dos animais selvagens?

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O bem-estar dos animais selvagens é uma área nova e inexplorada. Por isso, as acções mais importantes que podemos tomar agora são: a) difundir a ideia de ajudar os animais selvagens, e b) investigar possíveis intervenções.

As nossas primeiras intervenções na natureza provavelmente não serão dramáticas. As consequências negativas poderão ser enormes, pelo que faz sentido começar com acções pequenas e testar as nossas ideias num ambiente experimental. Mas a nossa escolha não é entre inacção e reacção exagerada. Existem intervenções directas que poderiam ser implementadas em médio prazo sem causar perturbações excessivas nos ecossistemas.

Uma opção é dar vacinas aos animais selvagens. Nós já o fizemos antes para controlar algumas doenças que poderiam passar para a população humana, como a raiva nas populações de raposas selvagens. Embora essas intervenções tenham sido realizadas em benefício potencial para os seres humanos, presumivelmente a eliminação de doenças em animais selvagens teria o mesmo efeito do que acontece em populações humanas, permitindo que os animais vivam vidas mais saudáveis e mais felizes. Não é claro que doenças seriam os melhores alvos, mas se começássemos a abordar a questão a sério, iriamos priorizar as doenças de forma semelhante ao que fazemos nos seres humanos, com base no número de indivíduos que afectam, o nível de sofrimento que infligem e as nossas capacidades para tratá-las.

Outra potencial forma de melhorar o bem-estar dos animais selvagens é reduzir o tamanho das populações. As questões da predação, doença e fome podem ser ainda piores em situações de superpopulação. Nestes casos, poderemos ser capazes de reduzir humanamente os números da população usando contraceptivos. Na verdade, isso já foi tentado em alguns cavalos selvagens e em veados de cauda branca. A regulação da fertilidade pode ser utilizada em conjunto com a vacinação para ajudar animais ao mesmo tempo que se previne a sobrepopulação, que poderia afectar os indivíduos de diferentes espécies no ecossistema.

Claro, isto pode não resultar para por várias razões, por isso precisamos de investigação que explore se estes são meios eficazes e seguros de ajudar os animais selvagens. À medida que adquirimos novas tecnologias e melhoramos a nossa compreensão do bem-estar dos animais selvagens, algumas soluções propostas provavelmente irão morrer e novas surgirão.

 

Apenas porque é natural não significa que é bom

Hurricane Katrina moved ashore over southeast Louisiana and southern Mississippi early on August 29, 2005, as an extremely dangerous Category 4 storm. With winds of 135 miles per hour (217 kilometers per hour), a powerful storm surge, and heavy rains, Katrina pounded the U.S. Gulf Coast, triggering extensive life-threatening flooding. This GOES image shows the storm as it moved over southern Mississippi at 9:02 a.m. The eye of the storm was due east of New Orleans, Louisiana. Katrina moved north into Mississippi, and was expected to track quickly northeast across the United States into Eastern Canada over the first part of the week. By mid-afternoon on August 29, Katrina had weakened into a Category 1 hurricane with winds of 95 mph (153 km/hr). A mere 24 hours earlier, Katrina had been one of the most powerful storms ever observed in the Atlantic Basin. The above animation tracks the storm’s degradation from a Category 5 storm on August 28, to a Category 1 storm on August 29 as the storm spent its fury on Louisiana and Mississippi. The first image in the animation was taken at 7:15 p.m. CDT on August 28. At this time, Katrina was well-organized, with a large eye. The storm had winds of 160 mph (258 km/hr) with ber gusts and a central pressure of 902 millibars. The lower the air pressure associated with a hurricane, the more powerful the storm tends to be. Since records began, only three storms have ever had lower air pressures. Katrina was a very powerful and extremely dangerous Category 5 storm. As the storm moved north through the night, it weakened slightly into a Category 4 storm before slamming ashore over southeastern Louisiana around 6 a.m. As the storm moved ashore during the day, it gradually lost its distinctive eye and weakened to the Category 1 storm seen in the final frame, taken at 2:45 p.m. on August 29. For more images of Hurricane Katrina, please visit the Natural Hazards section of the Earth Observatory. For more information about Katrina, see the National Hurricane Center web site. Images courtesy GOES Project Science Office To download this video go to: http://earthobservatory.nasa.gov/IOTD/view.php?id=5803 NASA Goddard Space Flight Center  is home to the nation's largest organization of combined scientists, engineers and technologists that build spacecraft, instruments and new technology to study the Earth, the sun, our solar system, and the universe. Follow us on Twitter Join us on Facebook

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Pode parecer que os animais selvagens existem fora do alcance justificável da humanidade e que intervir em ou “policiar” o mundo natural seria arrogante ou desrespeitoso. O sofrimento dos animais selvagens é natural, afinal de contas – quem somos nós para nos metermos no assunto?

Mas este apelo à natureza coloca demasiado valor em preservar comportamentos e sistemas naturais por si sós. É um erro considerar algo bom simplesmente porque é natural. Muitas coisas horríveis são naturais, como catástrofes naturais e doenças e nós estamos dispostos a intervir em situações em que podemos, em segurança, ajudar outros seres humanos que enfrentam esses problemas. Os animais selvagens merecem uma consideração similar.

Sim, o sofrimento dos animais selvagens é completamente natural – tão natural como horrores dos quais nos estamos a tentar livrar, como o cancro e a malária. É tão natural como a varíola era – antes de a termos feito desaparecer da Terra.

Além disso, a humanidade já tem um enorme efeito sobre o mundo natural. Assim, em vez de uma consideração de se devemos começar a intervir, a decisão diante de nós é se devemos tornar-nos mais reflectivos e compassivos em relação ao nosso efeito sobre os animais selvagens.

 

Os animais têm mais valor moral intrínseco do que a “natureza” em abstracto

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Alguns adeptos da ecologia profunda e semelhantes filosofias diriam que o mundo natural não-senciente, incluindo não só os animais, mas também a areia nos desertos e a água nos rios, em si possuem um direito fundamental de existir sem a interferência de civilização humana e que intervir para ajudar os animais selvagens não pode justificar a infracção desse direito.

Embora a atracção desse ponto de vista ser compreensível, ele não tem em conta uma diferença moral fundamental entre os seres sencientes, aqueles com a capacidade de sentimentos e experiência subjectiva, e entidades não-sencientes, como as árvores e as pedras.

Tente uma experiência mental. Imagine que está numa casa em chamas e precisa de sair rapidamente. É um fã de pinturas e tem várias no edifício, mas também há várias pessoas a dormir no outro lado da casa. Há tempo para ir buscar as pinturas ou para ir acordar as pessoas, mas não para ambas as acções. Agora, será que a beleza artística ou outros valores intrínsecos de uma daquelas pinturas faria com que desse prioridade ao seu valor intrínseco em relação a acordar as pessoas na casa, para salvá-las de serem queimadas vivas? Duvido, e, no mínimo, parece-me que devemos ser extremamente relutantes em relação a tolerar o sofrimento de seres sencientes para o benefício de coisas como pinturas que não têm sentimentos ou interesses próprios. Da mesma forma, não devemos tolerar o sofrimento dos animais selvagens por causa da “natureza” em abstracto.

 

As preocupações sobre o dano potencial não nos deve impedir de ajudar

Alguns poderão argumentar que não devemos intervir na natureza, pois isso poderia causar efeitos em cascata nocivos noutros locais do ecossistema, como através da extinção ou superpopulação de algumas espécies. Alguns poderão dizer que os seres humanos têm um triste histórico em relação à intervenção na natureza e que por isso não devemos continuar a tentar. Mas o nosso histórico consiste amplamente em tentar mudar a natureza para ganho humano em vez neste novo tipo de intervenção reflectiva e compassiva, que poderia trazer resultados mais promissores. No entanto, estes efeitos em cascata são uma preocupação séria, o que significa que temos de prosseguir com o máximo de cuidado.

De facto, muitas das grandes conquistas da humanidade vieram de uma vontade de agir num sistema complexo, com consequências potencialmente desastrosas. Mais uma vez, usando as doenças humanas como um exemplo, os nossos corpos são extremamente complexos, mas felizmente estivemos dispostos a investigar maneiras de reduzir as doenças que nos afligem. Isso levou a enormes avanços na medicina humana, como a eliminação da varíola. Neste exemplo, nós éramos as vítimas e percebemos que as doenças humanas exigiam a nossa atenção, apesar da complexidade de nossa biologia.

Infelizmente, os animais selvagens não têm o poder na sociedade para se queixarem e aliviarem o seu próprio sofrimento, como os seres humanos, pelo que é mais difícil de reconhecer a urgência das suas necessidades. Mas devemos agir em seu nome.

 

Olhando para o futuro

Com o avanço da tecnologia, a nossa capacidade para ajudar, com segurança, os animais selvagens, vai crescer. Mesmo que estas discussões e propostas possam hoje parecer especulativas e presunçosas, precisamos de mais pessoas a investigar estas questões para que as possamos resolver. Precisamos de evitar considerar exclusivamente estruturas como populações, espécies, ecossistemas e biodiversidade. Devemos lembrar-nos dos outros indivíduos que compartilham connosco este planeta.

 

Jacy Reese trabalha na Animal Charity Evaluators, uma organização sem fins lucrativos que investiga e promove formas mais eficazes para ajudar os animais.

Traduzido por: Luís Campos.

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