Texto de origem: For the abolition of veganism, for the abolition of slavery
Tradução: Maria João Silva

Sobre a mudança de paradigma necessária no movimento pelos direitos dos animais.

I. Introdução

a. Os animais não humanos são escravos

Sabemos claramente, desde Darwin, que os seres humanos não são os únicos animais com interesses e que sentem emoções. No entanto, na nossa sociedade especista, os seres não humanos têm, legalmente, o estatuto de propriedade. Encarados como recursos, são explorados para obtenção do seu leite e dos seus ovos, são mortos para obtenção de pele e carne, são usados como «material biológico» para experiências, etc.

b. 99,8% da escravatura animal = alimentação

O número de animais terrestres mortos para fins alimentares é contabilizado em cerca de 60 mil milhões de indivíduos todos os anos. Os animais aquáticos, contabilizados em toneladas, totalizam cerca de 150 milhões de toneladas todos os anos, o que equivale a pelo menos um bilião de vítimas. No geral, todos os anos são mortos cerca de um bilião e 60 mil milhões de animais para fins alimentares. Comparativamente, a indústria das peles mata 60 milhões de animais (0,0057% dos destinados a alimentação) e a experimentação com animais gera aproximadamente 300 milhões de mortes (0,028% dos destinados a alimentação).

II. Que estratégias devem ser usadas para abolir a escravatura animal?

Em primeiro lugar, analisaremos a estratégia usada pelos movimentos sociais para fomentar a mudança e compararemos posteriormente esta estratégia à que tem sido usada pelos ativistas dos direitos dos animais até agora.

a. A estratégia usada pelos movimentos sociais

aa. Máquinas de reivindicações.

Os movimentos sociais são máquinas de reivindicações.

1) Expressam uma reivindicação: → «Pelo fim do apartheid!», «Exigimos o direito de voto para as mulheres!», «O software deve ser gratuito!»

2) Posteriormente, dão mais visibilidade à reivindicação no seio da sociedade (manifestações, petições, cartas, debates televisivos, etc)

3) Esta reivindicação gera um debate na sociedade, fazendo com que a questão esteja na ordem do dia e, em consequência, se torne um problema público.

É importante observar que é sempre uma minoria que começa por apresentar uma reivindicação e, durante o debate público (que pode durar décadas), quanto mais a reivindicação é discutida, mais a minoria cresce, podendo até transformar-se, finalmente, em maioria.

Uma vez quebrada a unanimidade relativa a uma situação/prática, porque a mudança começa a ser reivindicada por algumas pessoas, torna-se mais fácil para outras questionarem essa prática (cf. estudo psicológico de Asch).

bb. O estudo psicológico do Professor Asch

«Qual das linhas da direita tem o mesmo comprimento que a linha da esquerda?» Depende…

Linhas

Nesta experiência, o Professor Asch mostrou uma folha com uma linha a dez pessoas. Foi pedido aos participantes que dissessem qual das linhas da direita tinha o mesmo comprimento que a linha da esquerda. Na realidade, apenas um dos participantes era o verdadeiro sujeito experimental, porque os restantes nove eram cúmplices do psicólogo e haviam sido instruídos a dar uma resposta incorreta. Quando os nove participantes cúmplices deram uma resposta errada, o participante real procedeu conforme a maioria. Acreditava inclusivamente que a maioria estava certa. Mas quando pelo menos uma pessoa quebrava a unanimidade dando a resposta correta, tornava-se mais fácil para o participante real questionar o que a maioria dissera, sendo mais provável responder corretamente.

Se a pressão social gerada pela unanimidade é tão forte relativamente a questões cuja solução pode ser encontrada através da mera observação, é fácil imaginar que será ainda maior para questões de justiça que requerem alguma reflexão.

A partir do momento em que a reivindicação da abolição de uma prática chega à sociedade, o consenso quanto à legitimidade dessa situação é quebrado. Começa a ser considerada problemática, tornando mais fácil a recusa por parte de outras pessoas em conformar-se com a maioria bem como o seu apoio à abolição de tal prática.

Assim, verifica-se que, através da expressão e visibilidade das reivindicações que criam um debate público na sociedade, os movimentos sociais aproveitam plenamente os efeitos benéficos resultantes da quebra de unanimidade em determinada situação.

b. A estratégia usada pelos ativistas dos direitos dos animais: estratégia de conversão

Vimos que a exploração animal para fins alimentares representa cerca de 99,8% da escravatura animal. No entanto, relativamente a esta matéria, os ativistas dos direitos dos animais têm usado a estratégia de conversão.

Esta estratégia consiste em converter as pessoas ao vegetarianismo/veganismo sem criar um debate público ou apresentar quaisquer reivindicações (como, por exemplo, «os matadouros devem ser encerrados imediatamente!»).

A convicção subjacente à estratégia de conversão é a seguinte: «Somos apenas uma minoria, pelo que temos primeiro de converter muitas pessoas ao veganismo e só depois criaremos um debate público.»

1) Mas todos os movimentos sociais eram uma minoria quando começaram a apresentar reivindicações, incluindo o movimento para a abolição da escravatura humana.

2) Além disso, a conversão ao veganismo é muito mais complicada se não houver um debate na sociedade a respeito desta questão, porque é extremamente difícil questionar uma prática unanimemente aceite (cf. estudo de Asch).

Os movimentos sociais nunca usaram este tipo de estratégia isoladamente. Havendo boicote, este é realizado em conjunto com as respetivas reivindicações. Exemplos: Martin Luther King apelou ao boicote dos autocarros de Montgomery reivindicando também a abolição da discriminação racial. Gandhi apelou ao boicote dos têxteis britânicos reivindicando também a independência da Índia. Por outro lado, também é problemático que o veganismo não seja sequer encarado pela opinião pública como um boicote político, mas antes como uma escolha pessoal (ver mais adiante).

A estratégia de conversão não é usada nos movimentos sociais mas sim nos movimentos religiosos.

Contudo, o sucesso desta estratégia é muito limitado: depois de 2000 anos de utilização desta estratégia pelo Cristianismo, a maioria da população ainda não é cristã e, de resto, o Cristianismo recorreu frequentemente a estratégias de conversão muito violentas. Quantos milhares de anos teremos de esperar para abolir a escravatura animal se usarmos esta estratégia?

III. Consequências da estratégia de conversão

a. Ineficácia

aa. Perspetiva histórica

Ao longo da história, a estratégia de conversão não logrou obter qualquer mudança em prol de mais justiça. Já a estratégia dos movimentos sociais revelou-se muitas vezes eficaz (movimento abolicionista da escravatura humana, movimento em defesa dos direitos civis, movimento pela libertação das mulheres, movimentos LGBT, etc). Deste modo, verificamos que é muito estranho para o movimento pelos direitos dos animais recorrer a uma estratégia que nunca trouxe qualquer mudança em prol de mais justiça em vez de outra que comprovadamente tem funcionado muitas vezes.

bb. A prevalência da proporção

Os estudos indicam que são preferíveis ações que erradiquem totalmente (ou quase totalmente) um problema a ações que não o erradiquem na sua totalidade. Por exemplo, num estudo recente publicado em 2006, o professor Bartels constatou que uma intervenção que, de 115 vidas em risco, salvasse 102, era considerada mais importante do que uma outra que, de 700 vidas em risco, salvasse 105, mesmo tendo o número de vidas salvas sido superior na segunda intervenção! Este efeito psicológico é designado por «proportion dominance» e Bartels demonstrou que o seu impacto era ainda mais importante no contexto da salvaguarda dos recursos naturais ou das vidas dos animais. Uma intervenção que, de 350 mortes de peixes devido à poluição da fábrica A, impediu 245, foi considerada muito mais relevante de que outra que, de 980 mortes de peixes devido à poluição da fábrica B, impediu 251.1

Imaginemos que ser vegano salva as vidas de cem animais todos os anos. Uma vez que o número total de animais mortos todos os anos é de um bilião e sessenta mil milhões, o salvamento daqueles cem animais é considerado totalmente insignificante pela nossa mente humana por causa deste efeito da «prevalência da proporção». Esta é a razão pela qual muitas pessoas recusam mudar a sua alimentação, conscientes de que as suas pequenas ações individuais não alterarão minimamente o número elevadíssimo de animais mortos para consumo humano todos os anos.

Todavia, se a recusa em consumir produtos de origem animal fosse apresentada como parte de um boicote mundial de um movimento internacional que procura eliminar a totalidade do bilião e sessenta mil milhões de mortes todos os anos, podemos presumir que as pessoas pensariam mais seriamente nesta questão. Isto mesmo sem ter em conta que a reivindicação «a morte de animais para comer tem de acabar!», por si só, abrirá um debate na sociedade, e levará assim a que um número considerável de pessoas reflita sobre o problema.

cc. Má gestão de tempo e energia

Os movimentos pelos direitos dos animais não contam com um número exorbitante de ativistas e os nossos recursos são limitados. No entanto, despendemos tempo e energia para converter cada um dos seis mil milhões de não veganos, desconhecendo se a nossa estratégia resultará um dia. Poderíamos, em alternativa, criar um debate na nossa sociedade, no seu todo, sobre a legitimidade da morte de animais para consumo alimentar, levando, consequentemente, cada cidadão a refletir sobre o problema. Porque o nosso objetivo é mudar a situação dos animais, deveríamos gastar o nosso tempo recorrendo à estratégia mais eficaz, a que nos permita alcançar a abolição da exploração animal o mais rapidamente possível, caso contrário, milhares de milhões de animais sofrerão e morrerão para nada.

Assim, se queremos que as nossas ideias sejam ouvidas de forma mais clara pela sociedade, incentivando a que mais pessoas boicotem produtos de origem animal para que, finalmente, a exploração animal possa um dia ser abolida, precisamos de criar um debate social, o qual será possível através de reivindicações públicas e não da estratégia de conversão.

b. Uma questão de escolha pessoal

A promoção do veganismo cria a impressão na opinião pública de que se trata de uma questão de escolha pessoal e não de uma questão de justiça: «Tal como alguns são muçulmanos, algumas pessoas são veganas, todos têm o direito de fazer o que quiserem.»

Naturalmente, a decisão de matar e comer outro animal não é uma questão de escolha pessoal mas sim uma questão de justiça para com os animais explorados. No entanto, as pessoas não o entenderão desta forma se não houver quem reivindique que a morte dos animais para consumo alimentar tem de ser abolida.

Devido à forma como o conceito de veganismo é utilizado, o que fica na mente do público é: «eles não comem produtos de origem animal porque são veganos», o que se assemelha bastante a «este indivíduo não come carne de porco porque é muçulmano». Resume-se novamente a uma escolha pessoal. Se usarmos reivindicações políticas, mudará para: «Eles boicotam os produtos de origem animal porque exigem o encerramento dos matadouros/querem a abolição da exploração animal /querem o direito à vida legalmente consagrado para os animais.»

Definirmo-nos como veganos/vegetarianos transforma a recusa de uma prática num simples modo de vida. Se não queremos que esta questão seja encarada como uma escolha pessoal, quando alguém nos perguntar porque não comemos produtos de origem animal, em vez de dizer «sou vegano» , deveríamos dizer: «boicoto produtos de origem animal porque defendo o encerramento dos matadouros» ou «defendo a abolição da exploração animal».

c. Reforço psicológico do especismo

O objetivo da estratégia de conversão é converter as pessoas ao veganismo. Os meios não são importantes, razão pela qual são usados muitos argumentos que nada têm que ver com a opressão de animais não humanos. Por exemplo, os argumentos ambientais ou relativos à saúde constam quase sempre dos panfletos que distribuímos, e às vezes não há uma única palavra sobre o especismo.

Se vivêssemos numa sociedade em que algumas pessoas comessem crianças, criticaríamos esta prática argumentando que tal pode ser prejudicial para a saúde dos canibais? Não, criticá-la-íamos argumentando que as crianças têm o direito de viver. De resto, questionar a saúde dos canibais transmite a mensagem inconsciente de que os interesses das crianças não são assim tão importantes.

Imaginemos uma manifestação contra o genocídio no Ruanda em que as pessoas diriam: «isto tem de acabar porque o massacre tem derramado demasiado sangue, o que polui as águas subterrâneas.». O recurso a este tipo de argumento (de saúde ou ambiental) é imoral quando em causa está o homicídio de seres humanos, e imoral é também usar este tipo de argumento quando em causa está o assassínio de seres sencientes de outras espécies.

A estratégia de conversão leva-nos a usar todos os argumentos que temos para converter as pessoas ao veganismo, mas quando usamos argumentos ambientais ou relativos à saúde em vez das vítimas mortas diariamente, transmitimos implicitamente a mensagem especista de que as vidas dos animais não humanos não são assim tão importantes.

IV. Que fazer para abolir a escravatura dos animais não humanos?

a. Exemplos da abolição da escravatura humana

Tomemos como exemplo os abolicionistas da escravatura humana no século 19.

Terão tentado converter as pessoas ao «hooganism» (um modo de vida que exclui todos os produtos da escravatura humana)?

Não! Reivindicaram que a escravatura humana teria de ser abolida e criaram um debate na sociedade sobre esta questão. Os ativistas dos direitos dos animais deveriam fazer o mesmo.

b. Estratégia moralmente inaceitável

Se no nosso país existissem campos de concentração em que escravos humanos fossem usados para produzir todo o tipo de produtos, diríamos às pessoas apenas para deixarem de comprar estes produtos ou reivindicaríamos o encerramento destes campos de concentração? Creio que expressaríamos claramente que devem ser encerrados e seria totalmente imoral pedirmos apenas que as pessoas boicotassem esses produtos.

Assim, a estratégia de conversão não só se revela ineficaz, criando a impressão de que matar animais é uma questão de escolha pessoal e reforçando inconscientemente o especismo, como não é uma posição moralmente aceitável.

c. A estratégia dos movimentos sociais

Se queremos acabar com a exploração animal, devemos reivindicar a sua abolição e fazer ecoar cada vez mais esta reivindicação na sociedade, criando um debate público quanto a esta matéria.

Por exemplo, na elaboração de panfletos, de comunicados de imprensa, em entrevistas e em manifestações, em vez de usarmos frases individualistas como «Tornem-se veganos!», devemos reivindicar de forma clara uma mudança na sociedade, dizendo «A morte de animais para consumo alimentar deve ser abolida».

Para ilustrar e compreender inteiramente a diferença entre as duas estratégias, comparemos os seguintes exemplos.

A estratégia de conversão:

«Tornem-se veganos!»

«O veganismo é bom para o planeta.»

«O veganismo é bom para a saúde.»

«Os veganos têm uma vida sexual melhor.»

«O veganismo é uma escolha racional.»

«A comida vegana é deliciosa!»

A estratégia dos movimentos sociais:

«Exigimos a abolição do estatuto de propriedade dos animais.»

«Os matadouros devem ser encerrados imediatamente.»

«A morte de animais para consumo alimentar deve acabar.»

«Os animais devem ter o direito à vida legalmente consagrado.»

«A agricultura, a pesca e caça, bem como a venda e o consumo de produtos de origem animal devem ser abolidos.» (copiado do website do movimento pela abolição da [produção e consumo de] carne: http://www.meat-abolition.org/en/presentation)

«A sociedade deve condenar e combater o especismo da mesma forma que luta contra o racismo e o sexismo.»

Conclusão

Ao participar no ativismo ou ao falar em defesa dos seres não humanos, devemos certificar-nos de que a nossa mensagem é entendida como um pedido de mudança que respeita à sociedade em geral. Em vez de temer a opinião pública, devemos ter a coragem de falar pelos animais e expressar o que realmente pretendemos:

«Exigimos a abolição da escravatura animal!»

1 Para mais informações sobre este estudo consultar: Bartels, Daniel M., Proportion Dominance: The Generality and Variability of Favoring Relative Savings Over Absolute Savings (2006). Organizational Behavior and Human Decision Processes, Vol. 100, pp. 76-95, 2006.

 March to end all slaughterhousesFonte: http://www.mtcas.org

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