Um cão é um cão é um cão

Reflexão a propósito da nova colecção de malas Carolina Herrera, inspirada no seu caniche Gaspar.



Por Andreia Faria

É fácil a um olhar contemporâneo identificar e rejeitar os preconceitos do passado. Já ninguém contemplará sem reservas imagens do exótico “outro” com que o olhar europeu do século XIX colonizava os nativos dos territórios invadidos – por exemplo, ser-nos-ia intolerável que Saartjie Baartman, à época conhecida como “a Vénus Hottentot”, fosse actualmente exposta pelos palcos dos chamados países civilizados para que pudéssemos admirar a “bizarria” da sua anatomia.O exótico enquanto «representação de uma cultura para consumo de outra» (Alden Jones) tem sido desmantelado pelos movimentos pós-colonialistas e feministas da segunda metade do século XX, e se o discurso mainstream cai em alguns dos bafientos lugares-comuns da objectificação do outro, logo nós, vigilantes e bem formados consumidores de jornais, revistas, livros e imagens, o denunciamos. Este tipo de fagia cultural, no entanto, prossegue com uma estranha impunidade no que toca aos animais, o que revela o quão ilusórias ou insuficientes são as lições que retirámos do passado.

Tomemos como exemplo a nova colecção de carteiras de Carolina Herrera e o texto que ma apresentou. Em “Vamos à rua, Gaspar?”, artigo de Inês Queiroz para a revista Fora de Série (suplemento do jornal Diário Económico, Novembro de 2013), é-nos dito que a estilista venezuelana se terá inspirado no seu caniche, Gaspar, para criar a sua colecção de malas de para senhora deste Outono. Assumindo uma (desde logo) problemática cumplicidade com “as leitoras” a que se dirige (i. e. a biologia feminina traz inscrito o interesse por malas de mão; já um leitor homem deverá refrear o seu entusiasmo pelas criações da famosa estilista), a autora do artigo explica que o animal de estimação de Carolina Herrera «emprestou o seu nome e anatomia à peça que trazemos na mão, ao ombro ou debaixo do braço» e que, na «versão tote», as malas Gaspar estão disponíveis «em pele de castor, de cabra», etc.

Se “Vamos à rua, Gaspar?” parece ser um despretensioso artigo, à deriva entre a publicidade e o fait-divers, não devemos deixar-nos enganar pela sua suposta inocência. Consideremos parágrafos como o seguinte:

«Ninguém em plena posse das suas faculdades mentais vai querer levar para casa um Beagle, se não tiver tempo, paciência e disponibilidade para o levar regulamente a fazer exercício a fim de gastar aquela energia electrica [sic] irritante, que parece ser uma das características mais marcantes da raça. Do mesmo modo, nenhuma mulher no seu juízo perfeito escolhe uma carteira só porque sim.»

Os problemas levantados por esta simples passagem são tantos que o melhor é começarmos por eliminar os mais óbvios (erros ortográficos, de pontuação e rendição acrítica a um estereótipo ou caricatura de “mulher”) para nos centrarmos no mais gritante, mas ainda assim menos passível de chocar os leitores – o seu manifesto especismo.

Se muitos tratados científicos e artigos de jornal do século XIX actualmente nos repugnam por um racismo assumido, há a esperança de que, dentro de alguns anos, a atribuição de características humanas e negativas a um animal («irritante») e a sua objectificação – repare-se que à decisão de adoptar um companheiro, um ser vivo, senciente, é atribuída a mesma gravidade que à compra de uma carteira – choquem qualquer leitor.

À medida que avançava na leitura do artigo de Inês Queiroz, eu não podia deixar de lembrar-me da polémica em torno de uma “artista” holandesa que há tempos decidiu fazer uma carteira a partir da pele do seu gato, matando-o com esse propósito. Frases como «este Verão, franjas e tachas assumem-se como protagonistas de um modelo que assume o mesmo perfil quadrado do caniche» e «as pequenas patas do simpático Gaspar foram reproduzidas nos pendentes de todos os modelos da nova colecção» preconizam e legitimam, mesmo que involuntariamente, a “ousadia” da esfoladora holandesa e, no limite, assumem um sadismo de que a autora do artigo da Fora de Série não estará consciente.

Mas a frivolidade que se atribui ao mundo da moda não dever ser imitada por quem escreve sobre ele, e a uma jornalista (ou pelo menos a quem assine um texto não assinalado como artigo de opinião) exige-se que seja criterioso e problematize os temas que aborda. Não estando em causa o mérito da autora de “Vamos à rua, Gaspar?” ou das qualidades artísticas de Carolina Herrera, é impossível não questionar alguns dos pressupostos em que o artigo assenta: 1.º) o amor da criadora venezuelana pelo cão que afinal objectifica; 2.º) a assunção de uma forma de leviandade que se conjuga no feminino e que se exerce, por exemplo, através da equiparação de um ser vivo a uma mala de mão; 3.º) a comoditização do caniche feito adereço, objecto maleável e adaptável à toilette da sua hipotética dona, um ser vivo que existe apenas em função da mulher e das roupas com quem terá de combinar quando sair à rua.

Elizabeth Costello* diz que os escritores têm mentes demasiado literais. Às vezes preferia que não fossem os escritores os únicos a tê-las. Cada vez mais precisamos (parafraseando a célebre frase de Gertrude Stein) de lembrar-nos de que «um cão é um cão é um cão» e não metáfora de carteiras de senhora ou de qualquer outro desígnio humano.

Malas Gaspar: http://www.carolinaherrera.com/ch/pt/collection/outono-2013-mulher/bolsas/1

Revista Fora de Série:  http://foradeserie.economico.sapo.pt/

* personagem ficcional apresentada pelo escritor vegetariano J.M. Coetzee no romance homónimo.


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