A minha história, ou como se vai de um filho à ideia de que não devemos comer animais



Testemunho de Nuno Meireles, da equipa da Vida Animal, sobre a sua "viagem" de omnívoro a vegano

 Durante anos comi o que quis, o que havia e o que calhava. Durante anos era eu só, com a minha saúde, o meu corpo e os meus apetites questionados só quando abusava de doces.


Trinta e tal anos a comer de tudo, mas sempre com uma vaga preocupação com a saúde. Vaga e abstracta. Comia bolos e tudo que me fosse possível cozinhar, ou habitual comer em casa.
Nunca fui muito a restaurantes nem soube cozinhar grande coisa, fazia um arroz, cozia frango, abria latas de atum e era um amante de todos os produtos de pastelaria: folhados (doces ou de carne), lanches mistos e até as infames francesinhas.

Perto dos trinta casei-me e neste capitulo da alimentação a vida saiu-me francamente enriquecida porque passei a comer do mais saboroso que se possa cozinhar: peixe assado, costeletas, empadões de carne, rissois, quiches, a par com generosas saladas, arroz, batatas assadas e afins.

A par de chocolates, batatas fritas, sumos, bolachas, bolachas com chocolate, leite nos cereais, iogurtes sólidos e líquidos, queijos de todas as espécies, alheiras e por aí fora.

Depois...
Depois de dois passámos a três. E aí a vida foi repensada. Um livro veio parar-me às mãos que falava da influência directa sobre a minha saúde de todo o tipo de aditivos: bastou um dia e a despensa foi esvaziada. Tudo tinha maltoses, dextroses, açucares mascarados, e muito mais. Pensei (pensámos) que não era esse o mundo alimentar em que gostaríamos que o nosso filho vivesse. Pensei na minha saúde directa. E os produtos processados foram à vida.

Foi um salto para uma vida melhor, a pensar numa vida que se queria boa e longa a par de uma criança. Mas só a pensar em três pessoas. Nós os três.

Mas uma coisa leva à outra: começámos a pensar em mais, e pensámos numa indústria que não nos envenenasse. Nem envenenasse as suas cercanias.

Começámos a comprar produtos orgânicos, para nós e para uma agricultura sustentável, desfavorecida face ao fabrico gigante e industrial do habitual. É preciso lembrar que há uma ideologia de justiça na cultura do orgânico, tanto de justiça para com o consumidor como para com a Terra. Isto era o nosso futuro em embrião.

Já pensava para lá de mim, mas não muito.

O critério era a saúde e este ainda é um critério que pode cair muito facilmente no egoísmo. A "minha saúde", o "meu bem-estar"...

Depois atinjo um extremo na busca do "meu bem-estar": tomo conhecimento da Dieta Paleolítica, que assenta sobretudo no consumo de proteína animal e em vegetais, recusando cereais e leguminosas. Torno-me "paleo". Isto aliado a exercício físico regular. Num mês perco peso, mas tanto que a balança me diz que tenho dezoito anos.

Mas preocupava-me - paradoxalmente - a origem da muita carne que eu comia, com os antibióticos, hormonas de crescimento (e etc) que davam a toda a vaca, porco, galinha que eu comia. Mas não pensava que era a Eles que davam...

Preocupava-me a extinção do atum, e ironicamente comprava Bonito dos Açores, como alternativa ecológica, mas não pensava no que significava o atum estar a ser extinto por tanta pesca.

Entretanto a minha gata adoeceu, com uma formação tumoral, que se agrava e à qual ela vai sobrevivendo. Sofria com isto. Sofria com essa morte eminente. Mas sofria só com a minha gata, não com nenhum outro animal não-humano...

Depois, de tanto pensar na minha saúde, de tanto hábito Paleo, dei conta de que estava a pensar só em mim, na "minha" saúde, na minha sobrevivência.

Eu conhecia muitos vegetarianos a que, olhava com sobranceria e paternalismo. Apesar de ter acontecido, há uns anos, eu ter abandonado durante umas semanas, o consumo de carne, sentindo-me muito mais calmo. Limpo de agressividade.

Ao mesmo tempo uma amiga mostra-me um video, depois vejo um documentário, depois leio isto e leio aquilo.*

O que vejo e o que leio e o que tinha sempre pensado sobre discriminação, consumo em massa, exploração e até saúde alinham-se todos.

Vejo como são criados os porcos em edifícios de betão, como são mortas as vacas, em linhas de montagem, como são amontoadas as galinhas em pavilhões, como todos os edifícios se assemelham a fábricas e como estas fábricas, com o seu cimento lavável, com os seus ferros e grades, são idênticos aos campos de extermínio.

Dou-me conta, quase a chegar aos quarenta anos de consumo de animais, de que existe uma industria invisível e horrenda. E um principio por trás: "os animais servem-nos".

Eu, Nuno Meireles, 38 anos, casado, actor e professor, não posso aceitar que seres vivos iguais a mim, iguais à minha gata por quem sofria, iguais a nós porque olham, sentem a mesma dor e se apegam aos seus filhos do mesmo modo como eu ao meu, sejam mortos para mim. Para mim...

Isso contraria tudo em que acredito.

Recuso portanto qualquer produto (neste mundo em que tudo foi transformado em produto) de origem animal: carne, peixe, ovos, manteiga, mel, leite etc.

E sabes? Sinto-me bem como nunca. Tenho o peso dos meus dezassete anos. Estou em forma, durmo muito bem, constantemente calmo, e... Psicologicamente, espiritualmente Bem!

Sou agora o que se poderia considerar vegetariano. Como maravilhosamente, olho o gato, sentimos os dois a falta da gatinha, vivo sem sentir incongruências. Ele faz-me festas e eu a ele. Aceito perfeitamente que somos os dois animais. Não o sinto nunca como insulto mas como elogio. Elogio à unidade no mesmo mundo em que vivemos.

E, admitamos, tem muita mais graça um mundo em que somos muitos a pensar no bem-estar uns dos outros, que o inverso.

*se quiseres saber mais:
Vídeos "Food Inc." "Gary Yourofsky greatest speech you'll ever hear" "Earthlings"

Livros "Libertação animal" de Peter Singer
"Elisabeth Costello" J.M. Coetzee"









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