Animais inteligentes?

Por João Graça, colaborador da Vida Animal

Há muito que a espécie humana tende a considerar-se a única detentora de inteligência no reino animal. Desde cedo aprendemos que os humanos são dotados de características únicas que os distinguem de todos os outros animais, e a inteligência é frequentemente apontada como uma das maiores fronteiras entre “nós” e “eles”. Mas o que dizem as evidências sobre esta ideia? Serão os animais realmente desprovidos de inteligência?

Na verdade, um crescente número de biólogos e etólogos tem vindo a alertar que a nossa visão mais tradicional do conceito de “inteligência” pode ser bastante limitada. Nas palavras de Culum Brown, investigador da Universidade de Edimburgo, uma visão de inteligência mais fiável e menos antropocêntrica (i.e., menos centrada apenas no ser-humano) pode ser definida simplesmente como a “capacidade de resolver problemas”. Neste sentido, ao longo do processo evolutivo, cada espécie vai desenvolvendo um determinado conjunto de capacidades de acordo com as suas necessidades, oportunidades e pressões do meio onde se encontra.

Cada espécie tem, então, o seu próprio conjunto de recursos e características. Assim, não faz sentido hierarquizar diferentes espécies de acordo com a ideia (que os humanos têm) de “inteligência”. Como esclarece Maciej Henneberg, professor de anatomia antropológica e comparativa, as nossas inteligências não estão em níveis diferentes, “são apenas de tipos diferentes”. De acordo com esta visão não há, portanto, espécies mais inteligentes do que outras: todas têm a sua própria inteligência.

Não obstante, muitas espécies são espontaneamente detentoras de capacidades que até recentemente se pensavam exclusivas do ser-humano, incluindo, por exemplo, a utilização de ferramentas. Os chimpanzés usam pedras e troncos para manusear e recolher comida, os elefantes usam e modificam ramos de árvores com diferentes dimensões para afastar insectos, e alguns polvos usam conchas e cascas de frutos como armadura.

Entre outros exemplos encontram-se pombos a apreender conceitos matemáticos abstractos, galinhas a reconhecer objectos parcialmente escondidos, gorilas a comunicar com humanos através de linguagem gestual, e porcos a jogar computador. E alguém lhe disse que os peixes têm uma memória de três segundos? Desengane-se: na verdade há evidências de que conseguem reter na memória informações até (pelo menos) onze meses.

Uma coisa parece certa: há ainda muito por conhecer sobre o complexo mundo das capacidades (e necessidades) de todos os animais. E, se quisermos aprender com eles, o futuro trará seguramente descobertas fascinantes.


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