Caixa de Sugestões - Celeiro: Retirar dica "seja discreto" do folheto sobre Alimentação Vegana



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Exmos. Srs.,

A Caixa de Sugestões é um projecto da Associação Vida Animal, no âmbito do qual pretendemos funcionar como uma caixa de sugestões permanente e interactiva, enviando às empresas e instituições ideias e conselhos para que sejam cada vez mais amigas dos animais e socialmente responsáveis.

Antes de mais, gostaríamos de dar os parabéns ao Celeiro por ser pioneiro na distribuição de produtos veganos em Portugal, o que o torna sem dúvida numa das empresas mais estimadas pelos defensores dos animais no nosso país. No entanto, essa relação positiva é precisamente um dos motivos para que nos pareça tão estranha uma "dica" incluída no folheto "Alimentação Vegana", disponível nas vossas lojas:
"Seja discreto em relação à opção de se tornar vegetariano. Explique as suas razões apenas a quem o questionar, deixando que as restantes pessoas decidam por si mesmas como se alimentarem."


O final da frase é indiscutível: naturalmente, um vegano tem de deixar que as outras pessoas decidam por si mesmas como se alimentarem. Não podemos - nem conseguimos - proibir ou obrigar as pessoas a comer aquilo que nós quisermos. Mas o conselho associado - "seja discreto" e "explique as suas razões apenas a quem o questionar" - é inaceitável, tanto mais por se enquadrar num panfleto genericamente bem escrito e que descreve de forma correcta aquilo que é o veganismo: "um modo de vida que assenta em razões éticas, como o respeito e o direito à vida de todos os seres vivos". Aconselhar um vegano a "ser discreto" em relação ao veganismo é negar a natureza fundamental do próprio veganismo: a afirmação de uma postura ética.

Mas mesmo que assim não fosse, mesmo que se tratasse apenas de uma preferência pessoal, por que razão deveríamos ser discretos em relação a ela? Como qualquer outra pessoa, cada vegano pode e deve ser tão discreto como deseje. Há veganos que, de facto, só explicam as suas razões a quem os questiona. Mas também há veganos que tomam a iniciativa de conversar com não veganos sobre o veganismo, a exploração animal e as alternativas existentes. Há veganos que partilham informação, criam sites na Internet e páginas no Facebook, distribuem panfletos. E há até veganos que são tão pouco discretos que escolhem juntar-se a associações, como a Vida Animal e muitas outras, cujo objectivo é precisamente a promoção do veganismo. E não há nada de errado com qualquer destas opções. Poderão dizer-nos que ninguém gosta de um chato, sobretudo de um chato que nos confronta com as nossas próprias incoerências. Mas na verdade, quando defendem causas justas, os chatos - ou, de forma mais elegante, os persistentes - são quem vai mudando o mundo.

Custa-nos compreender por que razão ser "discreto" é considerada uma "dica para uma transição gradual" para o veganismo, até porque, quanto mais reflectirmos e conversarmos sobre o tema, melhor compreenderemos a decisão que estamos a tomar, o que tornará a transição mais fácil e gratificante. E custa-nos ainda mais compreender por que razão se encontra essa dica num folheto de uma loja dedicada à nutrição e ao bem-estar. Recomendar que um vegano seja discreto em relação ao veganismo é como recomendar que um ambientalista, ou alguém que se opõe aos maus-tratos aos animais de companhia ou à discriminação racial ou de género seja discreto em relação a essa sua convicção. Trata-se de uma dica não apenas inadequada a uma sociedade livre, como mesmo prejudicial àqueles a quem se dirige, uma vez que assumir e defender as suas convicções, afirmando-se como um cidadão activo e disposto a trabalhar por um mundo melhor, contribui decisivamente para a paz de espírito e o bem-estar psicológico de qualquer pessoa.

Por estas razões, pedimos-vos que reconsiderem o conteúdo do referido folheto, retirando o trecho indicado, e desde já nos colocamos ao dispor para qualquer assistência que considerem necessária.

Com os nossos melhores cumprimentos,

Jorge Ribeiro
Presidente da Direcção


Comentários

  1. Também já enviei a minha mensagem de repúdio e desilusão sobre o texto!
    Bom Trabalho!

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