Fazer amigos entre os animais

Por João Graça, colaborador da Vida Animal

Henry David Thoreau, defensor da liberdade e opositor da escravatura nos EUA no séc. XIX, escreveu sobre a amizade: “A linguagem da amizade não são as palavras, mas sim os sentidos”. O que queria dizer Thoreau? Poderemos mesmo ter uma amizade que transcenda as palavras e seja plena de sentidos e significados? Posso ter uma amizade real com um indivíduo de outro país? Que fale outra língua? De outro sexo? Etnia? Cor da pele? Quais os limites da amizade? Posso ter uma amizade real, que transcenda as palavras, plena de sentidos e significados, com um indivíduo que pertença a outra… espécie?

Entre inúmeras definições do que caracteriza um(a) amigo(a), por norma existe um eixo que serve de tronco comum: um(a) amigo(a) é alguém que dá o que tem, está lá por nós, alguém com quem podemos contar. Transcendendo as palavras, alguém com quem partilhar sentimentos de alegria, bem-estar e até diversão, mas também angústia, tristeza e companhia na solidão. Será que podemos, então, fazer amigos também entre os animais? Por que não?

Com efeito, vários estudos científicos têm vindo a reforçar a ideia de que os “animais de companhia” podem ser uma importante fonte de suporte social e ajudar-nos a sentir-nos mais felizes, amados e até saudáveis. Por exemplo, há evidências de que as pessoas que vivem com animais, sobretudo cães, tendem a ir menos vezes ao médico, ter um sono mais profundo, sentir-se melhor e faltar menos vezes ao trabalho por motivos de doença. E gestos tão simples quanto acarinhar um animal ou assistir a um vídeo com peixes a nadar podem ajudar a baixar a tensão arterial. As crianças que crescem em casas com animais têm menos probabilidade de sofrer de asma e faltar menos vezes à escola por questões de saúde, e as pessoas idosas tendem a manifestar níveis mais elevados de bem-estar psicológico e mais baixos de depressão. Vários estudos mostram ainda que os adultos que têm uma relação de qualidade e proximidade com animais tendem a sentir-se menos sozinhos e a melhorar o seu funcionamento cardiovascular.

É também comum conhecer casos que se tornam mediáticos precisamente por ilustrarem o vínculo que pode unir indivíduos de diferentes espécies, incluindo humanos e não humanos. Os mais frequentes e conhecidos são, como seria de esperar, entre humanos e cães. Dos quais se destaca, por exemplo, o caso de Hachiko, que deu origem ao aclamado filme “Hachiko – Amigo para Sempre” (no original, Hachiko – A Dog’s Story). Hachiko, um cão japonês, acompanhava todas as manhãs Ueno (o seu dono) à estação de comboios, voltando ao final do dia para reencontrá-lo e regressarem juntos para casa. Um dia Ueno morreu inesperadamente, enquanto trabalhava, e nunca voltou à estação onde Hachiko o esperava. Durante 9 anos Hachiko continuou a regressar diariamente à estação, cumprindo o horário do comboio e aguardando, até ao fim dos seus dias, o regresso de Ueno.

Mas existem, para além dos “animais de companhia”, inúmeros casos de amizades improváveis entre pessoas e vários animais como porcos, cabras, vacas, touros e muitas espécies de aves, entre tantos outros. Então parece que sim: se estivermos dispostos a considerar que a linguagem da amizade não são as palavras mas sim os sentidos, podemos abrir-nos à possibilidade de fazer amigos entre os animais (humanos e não humanos).

Em cada amizade surge uma oportunidade: conhecermos melhor o “outro”, mas também conhecermo-nos melhor a nós próprios. Assim, ao construir uma relação fraterna com um animal, independentemente da espécie, colocamos também em perspectiva a relação que temos com todos os outros indivíduos, todos os outros animais, cada um com uma experiência única e irrepetível do que lhe acontece e do que o rodeia. Cada um com uma experiência única e irrepetível da vida. E podemos questionar-nos: cada vida conta? Para quem a vive: sim!


Imagem do Santuário Gaia

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