Os animais são conscientes?

Por João Graça, colaborador da Vida Animal

Nicolas Malebranche escrevia, em meados do séc. XVII, que os animais “Comem sem prazer, choram sem dor, crescem sem saber; não desejam nada, não temem nada, não sabem nada”. Estas palavras ilustram uma visão dos animais enquanto seres incapazes de experienciar quaisquer sensações ou emoções. Mas será que os seus comportamentos não passam mesmo de respostas mecânicas e automáticas? Ou serão os animais capazes de sentir sensações e emoções como dor, medo, prazer e alegria? Passados mais de três séculos, o que sabemos hoje sobre a forma como os animais não-humanos realmente experienciam o que lhes acontece?

Nas últimas décadas, um grande conjunto de estudos científicos tem vindo a reforçar a ideia de que os animais são, na verdade, seres sensíveis. E, do ponto de vista emocional, em muitos aspectos surpreendentemente semelhantes aos humanos. Por exemplo, a região do cérebro considerada a principal responsável pela mediação das emoções é de tal modo semelhante entre todos os animais vertebrados – incluindo os humanos – que é considerado um indicador de ancestralidade comum, em termos evolutivos.

Diversas evidências neurofisiológicas e comportamentais também apontam no mesmo sentido: os animais conseguem experienciar o que lhes acontece. Um grupo de cientistas de referência na área das neurociências emitiu inclusivamente, em 2012, uma declaração de princípio – The Cambridge Declaration of Consciousness – sugerindo que os humanos não são os únicos seres detentores de consciência. Por outras palavras, estamos a descobrir que somos muito mais semelhantes do que diferentes. Ou, parafraseando um conhecido músico português, que “muito mais é o que nos une que aquilo que nos separa”.

Ilustrando outro exemplo, Gregory Berns, neurocientista e autor, avançou recentemente que “os cães têm um nível de sensibilidade comparável ao de uma criança humana”, e concluiu que muitos outros animais também parecem ter emoções como nós.

Em suma, sabemos hoje que os animais têm uma vida emocional e sensorial muito rica. Mas, numa perspectiva histórica e cultural, apenas recentemente se iniciou a divulgação e consciencialização em larga escala acerca destas evidências. O que vamos fazer com este conhecimento permanece ainda uma questão em aberto. Não obstante, a indiferença é cada vez menos bem recebida, e as manifestações de cuidado, protecção e preocupação com o seu sofrimento e bem-estar têm cada vez mais expressão. E podem dar pistas sobre os caminhos que se seguem.

Comments are closed.